“O RPPS possuía um dono”: o governador do Rio de Janeiro e os R$ 3 bilhões do fundo de pensão dos servidores no Banco Master
A partir do celular de Daniel Vorcaro, a PF reconstruiu aportes bilionários do RioPrevidência no banco em meio a uma aproximação pessoal com o então governador Cláudio Castro — e o Min. André Mendonça autorizou busca e apreensão contra ele e mais sete pessoas e empresas.
Uma decisão do Min. André Mendonça na PET 15.676 descreve como a Polícia Federal, a partir da análise do celular apreendido com Daniel Vorcaro na Operação Compliance Zero, identificou aportes bilionários do RioPrevidência — o regime próprio de previdência dos servidores públicos do Rio de Janeiro — no Banco Master. Entre outubro de 2023 e julho de 2024, o fundo aplicou R$ 970 milhões em Letras Financeiras do banco; depois, entre dezembro de 2024 e outubro de 2025, diante de entraves regulatórios, migrou para fundos estruturados pelo mesmo grupo, em aportes que somaram R$ 2,01 bilhões — R$ 2,98 bilhões ao todo.
Segundo o Ministério Público Federal, citado na decisão, esses investimentos foram viabilizados por relações pessoais e políticas entre Vorcaro e o então governador do Rio de Janeiro, Cláudio Bomfim de Castro e Silva. A representação policial aponta sincronismo entre encontros dos dois — inclusive em ambientes privados e no exterior, custeados por Vorcaro — e a liberação dos aportes, além de uma troca na diretoria do RioPrevidência pouco antes do início da série de investimentos.
Sobre conversas encontradas no celular de Vorcaro a respeito do papel de Ricardo Siqueira Rodrigues, apontado como intermediário político e operacional dos aportes.
o RPPS possuía um “dono” que precisava autorizar os agentes internamente
Mensagem de Ricardo Siqueira Rodrigues a Daniel Vorcaro, reproduzida na decisão, comemorando o ritmo da captação de recursos do RioPrevidência.
Daniel, quero deixar registrado aqui meu agradecimento a toda a equipe q vc disponibilizou desde novembro. Atingimos a meta estabelecida em apenas 45 dias, o banco foi o segundo maior captador de LF [letra financeira] nesse período e temos um pipeline para o primeiro semestre já em reta final de mais de bilhão.
A PF também descreve o papel de três dirigentes do RioPrevidência nomeados pouco antes do início dos aportes — Deivis Marcon Antunes (então Diretor-Presidente), Eucherio Lerner Rodrigues (então Diretor de Investimentos) e Pedro Pinheiro Guerra Leal (então Gerente de Operações e Investimentos) — e de Fernanda Pereira da Silva Machado, então Gerente de Controle Interno e Auditoria, que teria assinado o atestado de credenciamento do banco e da corretora Planner sem as análises técnicas exigidas. Segundo a representação, a Mídias Promotora Ltda., vinculada a Ricardo Siqueira Rodrigues, teria recebido e distribuído comissões sobre os valores captados.
Reação interna, segundo a PF, ao saber que o RioPrevidência havia cotado uma instituição financeira concorrente ao Banco Master.
Estão indo pra cima do rj
Com parecer favorável do MPF, Mendonça deferiu parcialmente a busca e apreensão contra Cláudio Castro, Ricardo Siqueira Rodrigues, Deivis Marcon Antunes, Eucherio Lerner Rodrigues, Pedro Pinheiro Guerra Leal, Fernanda Pereira da Silva Machado, a Mídias Promotora e a Planner Corretora de Valores, com a ressalva de um endereço no Rio de Janeiro. A decisão determina que os mandados sejam cumpridos "de forma serena, respeitosa e discreta, sem qualquer espetacularização".
Segundo a PGR, o Banco Master chegou a captar ao todo R$ 3,691 bilhões junto ao RioPrevidência. Em decisão posterior, o STF negou um pedido de Ricardo Siqueira Rodrigues para trancar as investigações contra ele: a PF atribui a ele o recebimento de mais de R$ 40 milhões via Mídias Promotora — a empresa pela qual, segundo a PF, passavam as comissões do esquema —, mas ele nega qualquer vínculo societário, cadastral ou financeiro com a empresa e alega que sua atuação foi apenas consultiva.